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Porque o relacionamento entre as mulheres Gilmore deve ficar na TV





Recentemente fui abençoada pela Netflix com a adição de uma de minhas séries preferidas a seu catálogo, Gilmore Girls.

A série dos anos 2000 trata da vida de Lorelai e Rory Gilmore, mãe e filha respectivamente, na pequena e fictícia cidade de Stars Hollow. Ambas são melhores amigas e a série ressalta que isso se deve ao fato de que Lorelai teve Rory aos 16 anos de idade, de outro lado, mostra ainda o relacionamento disfuncional entre Lorelai e seus pais perfeccionistas.

A série ficou muito conhecida por seus diálogos rápidos cheios de referências pop e o quão bem escrita a comédia/drama era. Teve sucesso por 7 temporadas quando foi cancelada, sendo que a Netflix prepara uma temporada especial em sua plataforma.

Agora, com essa graça da Netflix, decidi fazer uma maratona de Gilmore Girls e me deparei com ma questão que chega a incomodar um pouco, não o suficiente para estragar a série, mas algo que me faz pensar. Essa questão é justamente o relacionamento de Lorelai, Rory e Emily (mãe da primeira).


SPOILER ALERT!!!!!!

Como descobrimos ao longo da temporada, Lorelai engravidou aos 16, não quis se casar com Christopher, e, devido a pressão dos pais, decidiu fugir de casa e encontrar abrigo e emprego na Independence Inn. Lorelai decide criar Rory sozinha e, superando os obstáculos e estigmas, faz um belo trabalho ao ponto de que, ao início da série, nos deparamos com uma jovem de 16 anos que é o oposto da mãe, Rory é responsável, organizada, estudiosa (Golden Child da cidade). Embora as duas não vivam há mais de 1h de Hartford, onde os pais de Lorelai moram, ambas têm um relacionamento absolutamente distante destes, o qual só vem a se desenvolver novamente quando Lorelai precisa de dinheiro para pagar pelos estudos de Rory.

Com o tempo vemos um relacionamento desenvolver entre eles, principalmente entre Rory e os avós, que vêem na neta tudo que queriam na filha, e Lorelai sabe disso. Mas principalmente vemos que Rory entende os avós e faz questão de tentar entendê-los, enquanto Lorelai vê todas as ações de seus pais como manipulação e se rebela contra tudo que pode argumentar. E é nesse ponto que a série me incomoda em alguns aspectos. Não pela história em si, mas justamente porque mostra uma certa realidade (não que toda garota de 16 anos engravida e tem pais podres de ricos para pagar a educação do neto) de revolta e egoísmo por parte de Lorelai. Um exemplo perfeito disso é um episódio em que Rory decide se inscrever em Harvard e depois também pensa em ir para Yale, onde seu avô estudou, ao revelar isso em um dos jantares na casa dos avós (com visitas), Lorelai surta, diz que Rory foi manipulada a se inscrever em Yale (uma das melhores universidades do mundo convenientemente perto de sua casa), briga com Rory na frente de todos, levanta e sai. 

Esse é apenas um dos exemplos de como às vezes, o relacionamento de mãe e filha,  deixa de ser mãe e filha e passa para o melhores amigas de uma maneira não saudável. Lorelai esquece seu papel de mãe (que seria apoiar a filha em qualquer de suas escolhas) e pensa apenas em como seus pais fazem de tudo para te atingir. Lorelai faz com que todos na mesa se sintam mal, inclusive seu pai (com saúde delicada e egresso de sucesso de Yale) e principalmente Rory, que não havia contado antes porque sabia que a mãe iria se magoar.

Esse é apenas um exemplo das muitas situações em que o relacionamento de mãe e filha é deixado de lado seja pelo egoísmo de Lorelai, seja por alguma situações de melhores amigas, onde Rory é sempre a mais responsável. E é nesse ponto que me incomoda um pouco. Rory gosta dos avós e não vê problema algum em seguir os passos do avô indo para a mesma universidade, mas ela se reprime e se magoa com o fato porque isso magoará a mãe, que nesse ponto se esquece de ser mãe e vira a filha adolescente egoísta e rebelde dos Gilmore. 

É certo que a rebeldia de Lorelai e seu jeito mais adolescente se dá pelo fato de que ela tem uma personalidade forte e rebeladora, que se viu em necessidade de liberdade dos pais controladores, em certo momento acreditei que estes a tivessem expulsado de casa quando descobriram a gravidez. Ocorre que não é essa a história, Lorelai fugiu e desligou os pais de sua vida e consequentemente da vida de Rory. Como a série mostra, Lorelai teve sorte em encontrar a dona da pousada que lhe deu abrigo e emprego, o que possibilitou que ao início da série, a protagonista fosse a gerente do lugar, podendo dar uma boa vida para a filha. Mas e se isso não tivesse acontecido?

De qualquer forma, ao precisar de dinheiro para sua filha, Lorelai (se humilhou) pedindo dinheiro a seus pais, sob a condição de um jantar semanal. Mesmo após seus pais ajudarem nos estudos de Rory, mostrarem que se importam e tentarem, a maneira deles, ter um relacionamento com ambas, Lorelai ainda trata os pais como um pesadelo que acabará quando pagar sua dívida. Embora seus pais tenham muitos defeitos, como ela também tem, não há nada na série que justifique tamanho rancor e desejo de distanciamento de seus pais como Lorelai tem e desejava que Rory também tivesse.

Com o tempo as coisas começam a se acertar, Rory é presenteada com o ótimo relacionamento que tem com os avós e Lorelai também começa a ter algum tipo de relacionamento com sua mãe, o que nos agracia com ótimos enredos e momentos cômicos. Me peguei pensando como seria legal ter uma mãe como Lorelai, que fosse minha melhor amiga etc. Ocorre que na realidade nem todas as filhas são auto suficientes e maduras como Rory,  que muitas vezes faz o papel de adulto da casa e, principalmente, não somos todos que temos avós ricos prontos para desembolsar uma boa grana. O relacionamento entre as duas serve como ponto inicial para a comédia/drama, mas não deveria ser exemplo de como relacionamento entre mãe e filha deve ser, às vezes precisamos de alguém que nos mostre as regras do jogo, que coloque limite e nos passe suas experiências, não alguém que furta os pãezinhos do jantar e joga na bolsa (ok, isso eu aceito!). Precisamos de alguém maduro que incentive um relacionamento saudável com nossos avós e nossos objetivos e, principalmente, seja agradecido por estes pagarem os estudos de seus netos. 

A sitcom peca no aspecto de que relacionamento entre mães e filhas também é bom, uma vez que as mães da série sempre são mostradas como rígidas, controladoras, chatas e caricatas (vide a mãe da Lane, mãe da Paris, mãe da Lorelai e mãe do Richard Gilmore). É bom ser amiga, mas o papel de mãe é extremamente necessário para o desenvolvimento social dos filhos, mais do que ser amiga. Na série esse relacionamento dá certo porque Rory já é praticamente um adulto responsável, o que dá espaço para que Lorelai haja como uma criança, e é por isso que esse tipo de relacionamento deve ficar na TV. Outra coisa, se seu pais oferecem de bom grado pagar pelos estudos de seus netos, seja agradecido e não os destrate, eles têm defeitos e você também.

O relacionamento entre as mulheres Gilmore é caricato: Lorelai é a adolescente às vezes irresponsável, Rory é o adulto e Emily é a controladora. Na equação temos resultados engraçados, tocantes e às vezes irritantes, mas são escritos e previsíveis, como a vida não é. A vida é muita mais complexa que isso. 

A série e excelente, continuarei minha maratona e serei a primeira a assistir a tão aguardada oitava temporada, porém, ao contrário dos anos 2000, em que eu era apenas uma jovem adolescente, assistirei com os olhos de um jovem adulto e compreenderei que aqueles relacionamentos são bons apenas na televisão, na vida real, eles são mais complexos, e muito melhores.






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